Preconceito com o envelhecimento é prejudicial à prevenção do suicídio

Para pesquisador da UnB, é preciso mudar a forma como a sociedade enxerga o fato de que todos envelhecem, e inserir os idosos em uma lógica menos focada em produtividade

Em entrevista ao CB.Saúde — parceria do Correio e da TV Brasília — desta quinta-feira (24/9), o psicólogo clínico e pesquisador Renan Lyra, da Universidade de Brasília (UnB), falou sobre como a prevenção ao suicídio precisa de uma abordagem multifatorial. Lembrando o fato de que o percentual é maior entre os idosos que em outras faixas etárias, o especialista explicou que os preconceitos cultivados pela sociedade sobre como é o processo de envelhecimento são um empecilho para a prevenção à morte autoinduzida nessa fase da vida.

“A nossa visão sobre o idoso é muito prejudicial. Quando a gente fala de prevenção, eu não falo só de melhorar a qualidade de vida dos idosos, de melhorar o número de relações sociais que ele tem, mas também de uma mudança nessa mentalidade do que é envelhecer”, ressaltou.

Para Lyra, é preciso compreender que o fato de os idosos não estarem no auge de sua produtividade não é demérito. “A gente tem uma mentalidade muito focada na produtividade, a gente vive numa sociedade capitalista em que ser produtivo é essencial para existir, e o idoso é o exato oposto. Ele é quem está deixando de produzir, é quem está demandando mais recursos. Gosto de trazer esse exemplo: quando a gente vê uma placa de uma vaga para idoso, é sempre uma pessoa curvada com uma bengala. Incapacitada, que precisa de ajuda, precisa de algum auxílio”, ilustrou.

Está claro, ao psicólogo, que isso não significa ignorar as especificidades de cada faixa etária. “É lógico que o envelhecimento traz uma nova demanda, traz mudanças significativas corporais, cognitivas, (…) mas a nossa visão sobre o envelhecimento também é muito negativa. A gente costuma dizer que quando uma pessoa reclama muito, ele reclama como um velho”, resumiu.

Mas a leitura que se faz, coletivamente, sobre a terceira idade é que precisa de uma transformação. “A gente tem essa coisa muito sedimentada na nossa cultura de uma visão muito negativa sobre o idoso. Eu acredito que com certeza isso é prejudicial para a gente pensar a questão da prevenção junto a essa população”, colocou.

Transtornos psiquiátricos

Sobre os fatores que mais expõem a população em geral, e também os mais velhos, ao risco de suicídio, Lyra comentou que os transtornos psiquiátricos têm uma presença estatística importante. “A gente vê muitos dados falando que 90% dos casos de suicídio têm uma relação com transtornos mentais. E isso simplifica essa discussão do que são os fatores de risco, porque acaba trazendo uma explicação muito simplista, ‘é basicamente transtornos mentais’”, expôs.

Apesar disso, de acordo com o pesquisador, a discussão não pode se restringir ao tratamento das desordens fisiológicas. “Eles têm uma influência, é importante que a gente possa tratar na população idosa, ou em toda a população, essa questão dos transtornos psiquiátricos, mas não somente se fechar nessa questão biologiscista”, argumentou.

Essa perspectiva foi, inclusive, tema de um guia de orientação para profissionais sobre como lidar com suicídio e automutilação publicado pelo Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal (CRPDF). “Outros fatores de risco que a gente tem são mudanças drásticas de vida, por exemplo, a questão da pandemia. É uma situação muito disruptiva que causou uma mudança geral sobre como a gente vinha levando a vida, diversos planos que foram adiados, essa é uma situação extremamente delicada. A questão do isolamento também vale para todos”, exemplificou.

O psicólogo concluiu lembrando que o fenômeno do suicídio é multifatorial, mas a qualidade das relações sociais que as pessoas mantêm pode ser determinante na prevenção. “Ter relações saudáveis é essencial para a nossa qualidade de vida. Nós somos seres biopsicossociais e somos naturalmente inclinados à socialização. Então, ter relações, e que essas relações sejam positivas, é muito importante para a saúde. A questão do desemprego, a questão da renda, questões sociais também estão ligadas, é um fenômeno realmente muito complexo.”

 

Texto: Jéssica Gotlib/Correio Braziliense

Foto: Freepik

 

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