Podcast Legal: a mulher idosa como agente de mudança social

Olá, me chamo Fábia Maruco sou advogada e professora universitária. Você sabia que a mulher idosa é considerada agente de mudança social? Há não muito tempo atrás, o envelhecimento trazia para as mulheres brasileiras, pobreza e isolamento. A grande mudança ocorrida nos últimos vinte anos é que o final da vida ativa e a viuvez não significam mais necessariamente isso. Para uma grande maioria de pessoas, pode significar uma nova fase no ciclo de vida. A universalização da Seguridade Social e a melhoria das condições de saúde trouxeram uma reconceitualização do conceito da vida.

A última fase da vida deixou de ser residual, vivenciada por uma minoria, para ser uma fase de duração até maior do que a infância e a adolescência. Ou seja, as idosas de hoje estão assumindo papéis não esperados, tornando-se também importante agentes de mudança social. A maior preocupação com a questão do envelhecimento populacional e, em especial, com o feminino, decorre do fato de se encarar esse contingente como dependente e vulnerável não só do ponto de vista econômico, como também de debilidades físicas, o que pode acarretar perda de autonomia e incapacidade para lidar com as atividades do cotidiano. Fala-se aqui de mulheres que estão no seu último estágio da vida, o qual é associado com a retirada da atividade econômica, com taxas crescentes de morbidade, principalmente por doenças crônicas, de mudanças na aparência física, além do aparecimento de novos papéis sociais, como o de ser avós ou chefes de família, em decorrência da viuvez.

É fato já reconhecido que a mulher idosa brasileira está vivendo mais e em condições melhores de vida. Isto se deve à ação conjunta de três fatores: a ampliação da cobertura previdenciária, o maior acesso aos serviços de saúde e o crescimento da tecnologia médica. A redução da mortalidade beneficiou ambos os sexos, mas foi mais expressiva entre as mulheres, o que resulta na sua maior representatividade dentre a população idosa. Esse aumento significativo é decorrente de mudanças que têm ocorrido, tanto no que se refere aos níveis de natalidade (redução de número de filhos) quanto aos de aumento da longevidade, decorrente do avanço da tecnologia (prevenção e eliminação de doenças; controle sobre moléstias infectocontagiosas e epidemias). Contudo, embora a ciência tenha conseguido estender significativamente a expectativa de vida das pessoas, ainda se faz necessário que sejam viabilizadas condições para que estas tenham uma existência digna, representada por uma boa qualidade de vida e por um bem-estar psicológico e social na velhice.

A mulher brasileira, mesmo idosa, continua desempenhando o seu papel de cuidadora, mas assumiu também o de provedora. A estimativa da ONU para 2040 aponta para um número de 23,99 milhões de homens e 30,19 milhões de mulheres, uma diferença de 6,2 milhões de mulheres em relação à população idosa masculina. Para 2060, o IBGE estima um contingente de 33 milhões de homens idosos e de 40,6 milhões de mulheres idosas, com superávit feminino de 7,6 milhões de mulheres. Desse contingente majoritário, existe uma alta proporção de mulheres idosas que moram sozinhas nos domicílios particulares unipessoais ou moram em domicílios com outros parentes ou agregados, mas sem a presença de um companheiro. Esse fato foi denominado no passado de pirâmide da solidão. Mas como morar sozinho não significa ser solitário, o denominado fenômeno da “pirâmide da solidão” deve vir escrito entre aspas, indicando apenas a existência de um crescente número de mulheres idosas sem cônjuges.

Até o ano 2000 as mulheres idosas (aquelas nascidas antes de 1940) tinham nível educacional, em média, menor do que o dos homens, refletindo a discriminação de gênero existente na educação brasileira do passado. Porém, o novo contingente de mulheres com mais de 60 anos tem revertido a desigualdade de gênero, fazendo com que o nível de escolaridade do sexo feminino atualmente seja maior do que o do sexo masculino também entre a população idosa. Ou seja, as mulheres têm dado uma grande contribuição para elevar o nível educacional do conjunto das pessoas do topo da pirâmide populacional. A sociedade brasileira precisa saber aproveitar o potencial das recém-chegadas à terceira idade e que possuem altos níveis educacionais e ricas experiências de trabalho e de vida. Já não se faz mais sexagenárias como antigamente. Ouça o podcast (CLIQUE AQUI).

Referências:

ALVES, José Eustáquio Diniz. As mulheres e o envelhecimento populacional no Brasil. Disponível em: https://www.ufjf.br/ladem/2016/01/29/as-mulheres-e-o-envelhecimento-populacional-no-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/>. Acesso em 06 mar.2021.

CAMARANO, Ana Amélia. Mulher idosa: suporte familiar ou agente de mudança?. Estud. av. , São Paulo, v. 17, n. 49, pág. 35-63, dezembro de 2003. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000300004&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 06 de março de 2021. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142003000300004.

LOMB, Marly; PINTO, Meyre Eiras de Barros; De Cnop, Jeanette Monteiro. Um olhar para mulheres idosas: relato de uma experiência de intervenção. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/pe/v5n1/v5n1a07.pdf>. Acesso em 06 mar.2021.